Hoje apetece-me contar a estória um bocado longa dos meus sentimentos em relação à falta de luz.
Para mim, falta de luz é sinónimo de paz, tranquilidade, silêncio, reencontro consigo mesmo e com as outras pessoas, sem a televisão, o computador, o rádio, o ar condicionado, todas as actividades que pressupõem electricidade, como a depilação e tantas outras... Enfim, o «barulho» do nosso dia-a-dia!
Na minha infância em Luanda, quando faltava a luz (que era frequente) à noite, em vez de estar cada um enfiado na sua casa ou no seu canto, vínhamos todos os da casa e às vezes os vizinhos para a varanda ou quintal, onde estava mais fresco, e aí ficavamos a conversar, a cantar ou a tocar ou simplesmente a apreciar o silêncio e a calma da noite.
Também passei muitas horas a falar ao telefone com os amigos, nas noites de falta de luz. Naquela época o telefone era muito muito barato. Falávamos às vezes duas e três horas ao telefone!! Com os mesmos amigos com quem estava na escola a tarde inteira e a quem ainda escrevia cartas de manhã e bilhetes nas aulas.... Mas, voltando à falta de luz, falar ao telefone assim sem tempo na escuridão e sossego da falta de luz tem uma intensidade e uma intimidade indescritível.
Fui viver para Lisboa e a electricidade passou a ser mais um «dado adquirido» como a água, os transportes públicos, os supermercados com tudo em cada esquina.
Até que, um belo dia, pus-me a fazer limpezas em casa, numa casa arrendada onde estava e que não conhecia ainda muito bem. Liguei todas as máquinas ao mesmo tempo: de lavar roupa, de lavar loiça, aspirador, sei lá que mais... Saí e deixei máquinas a trabalhar...
Quando cheguei, tarde e com a intenção de apenas tomar um banho e sair com uns amigos, que me esperavam enquanto me despachava, para uma discoteca, encontrei tudo às escuras. Eles começaram a gozar que eu não tinha pago a luz... Era o senhorio que a pagava, mas a essa hora não podia ligar-lhe...
Entretanto, acendi velas, tomei banho com essa luz tão romântica e intimista... O bom da falta de luz na Europa é que náo significa falta de água também como em Angola, já que falha a bomba electrica para puxar a água, que de outra forma não tem pressão...
Enfim, enquanto fazia tudo à luz de velas ía recordando a infância e revivia essas memórias boas e doces da falta de luz.
Quando voltei da discoteca, dormi a saborear essa nostalgia da falta de luz, da ausência de ruído, de luz, de confusão.
Só no dia seguinte é que me lembrei do congelador... E comecei a pensar que convinha resolver o que afinal era um «problema» da falta de luz. Então fiz um telefonema e ao seguir as indicações para verificar o quadro... descobri que tinha sido só o dito que tinha disparado!... «botão grande para cima» outra vez e acabou-se a falta de luz!!...
Nem queria acreditar!
Mas pelo menos pude reviver aquela sensação e matar as saudades!! Isso já ninguém me tira!!:)
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